quinta-feira, 30 de abril de 2009

Só um menino...

Estava sozinha, perdida em meus pensamentos, devaneando sobre acontecimentos hipotéticos, ainda que eu pudesse torná-los reais. Às vezes nos pegamos imaginando diálogos, ensaiando frases, gestos. Tudo muito possível, mas que não temos coragem de tirar do papel.

Estava sozinha, mas ao mesmo tempo rodeada de imagens, ouvindo conversas e gargalhadas. Olho para a rua: o movimento. Carros, motos, pessoas. Algumas olham para mim com um ar de espanto. Talvez seja a maquiagem, resumida em três tons: preto, branco e vermelho. A tinta preta dos olhos, o branco pálido da face e o bom e velho batom vermelho, que fazia um destaque quase reluzente. Ou fosse a roupa. As pessoas não estão acostumadas com preto e marrom as onze horas da manhã. Porém pode ser justamente esse conjunto, preto e marrom no corpo, preto e branco com um detalhe vermelho, no rosto, que fizesse aquele menino insignificante olhar, não com aquele espanto habitual, mas com um espanto diferente.

Era um olhar que me petrificou, um olhar gostoso de sentir, ainda que fosse de um menino. Aquelas sobrancelhas grossas, os cílios fartos e os olhos negros, amendoados, escondidos em um rosto de menino travesso. Passou por mim, como qualquer um dos transeuntes, mas era como se deixasse ali parado, como uma estátua, aqueles olhos de menino que descobriu ser homem, mas estava preso a um corpo que não era dele. Seus olhos eram devoradores, contrastando com sua meninice de andar. Foi então que eu senti nascer em mim, como um despertar de algo que adormecera pela falta de uso, a minha feminilidade. Era preciso que esses olhos intensos de menino passassem por mim, percorressem meu corpo, para que a mulher que há em mim nascesse. Eu descobri em sua meninice a mulher que dormia em mim.

4 comentários:

Camponês disse...

reconheço esse olhares

Alexandre disse...

Olá...gostei do contraste menino inocente/mulher adormecida! Na verdade no conceito me lembrou um pouco Thomas Mann, não sei se vc já leu 'Morte em Veneza'. Só que o lance ali é a decrepitude/juventude que um velho rico vê num menino! Bjão!

Camponês disse...

sim...

do passado...

e raramente do presente, mas ainda sim....

lembranças....

MAURO LIMA disse...

Coisas loucas a mente são os sentidos, não sendo os sentidos parte da mente, mas sem deixar de ser uma extensão da própria mente

Fatos comuns a pessoas que existem de verdade

nosss, q post massa
saudads de ti
bj